Entre os muitos gestos que atravessam a maternagem, apresentar uma criança ao universo dos livros talvez seja um dos mais transformadores. Em Leitura cria mundos – um projeto sobre democratização do livro, Renata Costa reflete sobre o papel político, afetivo e social da leitura, mas também compartilha experiências profundamente pessoais sobre criar filhos em diálogo com os livros, a imaginação e o pensamento crítico.
Neste especial de Dia das Mães, conversamos com a autora sobre o capítulo “Maternagem literária”, em uma entrevista que atravessa os desafios da maternagem solo, a formação de leitores, o acesso desigual ao livro no Brasil e o poder da leitura como ferramenta de afeto, escuta e transformação. Em tempos marcados pela rapidez e pelo excesso de informação, Renata nos convida a pensar: o que significa formar leitores e seres humanos no mundo de hoje?
1. Renata, como foi conciliar maternagem e carreira no mercado editorial sendo mãe solo?
Na verdade, não foi exatamente uma escolha planejada. Foi quase uma sucessão de acontecimentos que foi me trazendo até aqui. Eu era muito nova, ainda sem saber que caminho seguir, quando ouvi uma pergunta aparentemente simples: “O que você gosta de fazer?”. Aquilo mudou muita coisa, porque percebi que a coisa de que eu mais gostava na vida era ler. Mas eu não enxergava a leitura como possibilidade profissional. Livro era prazer, abrigo, uma espécie de território íntimo, não carreira. Mesmo assim, segui esse instinto e fui trabalhar em uma livraria. Ali comecei a entender que existia uma linha possível dentro do universo dos livros. De livreira, fui para o mercado editorial, depois para as políticas públicas de livro, leitura e bibliotecas, curadoria de festas literárias e de projetos ligados à área.
Conciliar maternagem e carreira não era exatamente uma escolha sofisticada, era a única possibilidade concreta. Eu era mãe solo de dois filhos, numa rotina muitas vezes dura, cansativa e cheia de inseguranças. Mas trabalhar com livros me ajudava a respirar em meio ao caos. A literatura tem uma capacidade muito particular de reorganizar a vida por dentro. Acho que os livros não ajudaram simplesmente a construir minha trajetória profissional, em muitos momentos, eles também me ajudaram a continuar emocionalmente inteira.
2. Você cita no capítulo um episódio em que riram do seu filho por levar a versão original de um livro para a escola, enquanto outras crianças usavam adaptações simplificadas. Em uma era marcada pela rapidez, pelos resumos prontos e pelo uso cada vez maior de IA para interpretar obras, como as mães podem incentivar uma relação mais profunda, sensível e crítica com a leitura?
Sim, me lembro perfeitamente. Meu filho tinha uns 14 anos e a escola havia pedido Os Miseráveis, do Victor Hugo. Eu tinha em casa uma edição linda, em capa dura, e imaginei que aquilo resolveria mais uma das muitas despesas do início do ano letivo. O que eu não percebi era que a escola havia solicitado uma adaptação simplificada, com poucas páginas. Como ele era um leitor muito apaixonado, nem passou pela cabeça dele que não seria a edição original.
Quando chegou à escola, os colegas (e até o professor) riram dele. Ele ficou profundamente constrangido. E essa cena nunca saiu da minha cabeça, porque ela revela muito sobre o nosso tempo. Em vez de celebrar o encontro de um adolescente com uma obra integral, muitas vezes nós simplificamos tudo, aceleramos tudo, resumimos tudo. Como se profundidade fosse excesso.
Acho que, num tempo atravessado por resumos prontos, excesso de telas e agora também pela IA interpretando tudo por nós, talvez o mais importante seja devolver à leitura um espaço cotidiano e afetivo dentro de casa, sem transformar o livro apenas em obrigação escolar ou ferramenta de desempenho. A literatura ensina algo que o mundo atual quase não tolera mais, que são permanência, silêncio, imaginação e, o mais importante, empatia. E eu acredito profundamente que os livros ainda são capazes de criar uma pausa intelectual e emocional necessária para continuarmos humanos.
3. Você mostra como a leitura atravessa o cotidiano da criação dos seus filhos. Em um país onde o acesso ao livro ainda é desigual, como a maternagem pode se tornar também um gesto político de formação de leitores?
Se você parar para pensar, até mães que não são leitoras costumam apresentar livros às crianças. De alguma maneira, elas percebem intuitivamente que existe algo importante ali. Não por acaso, as pesquisas sobre leitura no Brasil mostram que as mães são as maiores incentivadoras da leitura na infância, à frente até de professores e bibliotecários.
Isso é bonito, mas também revela uma injustiça silenciosa. Porque significa que a formação leitora ainda recai excessivamente sobre as mulheres, como se fosse mais uma obrigação invisível da maternagem, quando, na verdade, formar leitores deveria ser uma responsabilidade compartilhada entre famílias, escolas, bibliotecas e políticas públicas.
Mesmo assim, acredito que incentivar a leitura é sempre um gesto político. Uma criança que lê amplia sua capacidade de imaginar, interpretar e questionar o mundo. E sociedades que leem tendem a ser menos autoritárias, menos manipuláveis e mais conscientes da própria realidade. Talvez por isso o livro siga sendo tão necessário à democracia.
4. Você acredita que a relação afetiva entre mães, crianças e livros pode transformar a forma como uma nova geração enxerga a leitura? Como criar esse vínculo mesmo em famílias que não tiveram tradição leitora?
Acredito muito. Hoje trabalho diretamente com feiras de livros e festas literárias, e talvez uma das cenas mais bonitas seja justamente ver mães e filhos escolhendo livros juntos, em um momento de conexão máxima. O livro acaba funcionando como uma ponte afetiva entre gerações. E acho importante dizer que famílias sem tradição leitora não estão excluídas dessa possibilidade. Muitas vezes o vínculo com a leitura começa em gestos simples: uma história antes de dormir, uma ida à biblioteca pública, um livro escolhido junto numa feira literária. O afeto costuma vir antes do hábito.
Mas também não podemos tratar a formação de leitores como responsabilidade exclusiva das mães. Para que a leitura faça parte da vida cotidiana das crianças, é fundamental que existam políticas públicas estruturantes, como o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) e os planos municipais e estaduais. O acesso ao livro não pode depender apenas da condição financeira das famílias. Leitura é direito cultural e precisa ser entendida como parte da construção democrática de uma sociedade.
5. Sendo mãe solo e atuando no mercado editorial, quais foram os maiores desafios para manter a leitura viva dentro da rotina da maternagem? E o que essa experiência te ensinou sobre cuidado, imaginação e formação humana?
Talvez o maior desafio tenha sido justamente o tempo. A maternagem solo consome tempo, energia emocional, corpo, atenção. E a leitura exige presença. Houve muitos momentos em que eu estava cansada, preocupada com contas, trabalho, rotina, tentando dar conta da vida prática. Então manter a leitura viva dentro de casa nunca foi sobre construir uma imagem idealizada de mãe leitora, era mais sobre insistir em preservar pequenos espaços de humanidade em meio ao caos cotidiano.
Essa experiência me ensinou algo muito profundo sobre essa formação humana. Crianças aprendem observando a relação que os adultos constroem com os livros, com a imaginação, com a escuta e com o mundo. Acho que a literatura ensina empatia, complexidade e permanência num tempo muito acelerado. E talvez cuidar também seja isso: ajudar uma criança a perceber que existe um mundo para além da sobrevivência imediata. Que ela pode imaginar, sentir, interpretar e sonhar.
Ao longo desta conversa, Renata Costa nos lembra que a maternagem literária não se constrói a partir de idealizações, mas de presença, afeto e insistência cotidiana mesmo em meio ao cansaço, às dificuldades e à urgência da vida prática. Mais do que formar leitores, o encontro entre infância e literatura pode abrir caminhos para a imaginação, a empatia e a construção de um olhar mais crítico sobre o mundo.
Em um país onde o acesso ao livro ainda é desigual, falar sobre leitura também é falar sobre democracia, pertencimento e futuro. Que esta entrevista inspire novas formas de aproximação entre crianças, famílias e livros porque, como Renata nos mostra, ler também é uma forma de cuidar.

Sobre a autora:
Renata Costa se apaixonou pelos livros ainda na infância e A viagem de Clarinha foi uma das primeiras percorridas pela sua trajetória em prol da Leitura. Renata é gestora do projeto Palavralida, iniciativa sobre livros, leituras e leitores. Realiza assessorias, curadorias e capacitações para eventos, projetos, escolas, empresas em busca de soluções inovadoras no campo do livro e da leitura, valorizando a bibliodiversidade. Ex-secretária do Plano Nacional do Livro e Leitura do Brasil – PNLL (2017-2019), representando a sociedade civil na defesa de diretrizes para uma política pública voltada à leitura e ao livro no país. Foi coordenadora do Sistema Estadual de Bibliotecas do Rio de Janeiro, do Programa Nacional de Incentivo à Leitura e de acervos na Secretaria de Estado de Cultura, trabalhando da elaboração e promoção do Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas implementando uma política pública de democratização do acesso ao livro, à leitura e à escrita para a formação de leitores.E, o mais importante, é mãe da Bruna e do Sylvio e avó do Chico.